A poesia pode ter milhares de formas. Milhares de cores. Pode ser negra como o estado de espírito, verde como a vontade, dourada como a magia ou vermelha como o sangue. Pode ser lida ou cantada, lenta e erótica, veloz e arrasadora. Mas pode também não ser nada. Apaixonadamente, nada.

segunda-feira, abril 11, 2005

Insurreição

Violo os lacres de todas as minhas personificações
Num acto de rebeldia, de insurreição reflexiva.
Questiono-me em silêncio no limiar de exclamações,
Como um deus sem súbditos que procura a fé fugitiva.

Acordo sem teu torpor na minha pele lacrado,
Sem prenúncios de êxtase no vazio estático da cama.
Clamo a insolência dos segmentos do teu corpo suado,
Da tua pele sobre esta, como o fósforo que dá chama.

Insurjo-me contra a acalmia deste éter em fúria,
Quando desejo diluir-me por debaixo da tua pele,
Tornar-me alvo do teu sangue, objecção desta incúria,
Se me rejeitares em cada veia, cada fado que me sele.

Acrescento-me a ti, integro-me na tua semântica,
Liquidifico-me no teu existir, na solidez que perdura.
Torno abstractos números desta descrença em quântica
Para tentar enganar deus com estes actos contranatura.

Sincronizo-me na paralisação dos instantes de ausência,
Na extensão corporal desta fugacidade incompreensível.
Rotulo-me na fuga de mim mesmo, na sua intransigência,
Com a violência sacramental do pensamento irreversível...

Suspendo pensamentos, virtudes e enganos que se concebem
Nos limites do teu corpo, nas ravinas irreais da tua dimensão.
Vicia-me a sequência de todos os beijos que me recebem,
Estendido sobre as assimetrias da minha própria explosão.