A poesia pode ter milhares de formas. Milhares de cores. Pode ser negra como o estado de espírito, verde como a vontade, dourada como a magia ou vermelha como o sangue. Pode ser lida ou cantada, lenta e erótica, veloz e arrasadora. Mas pode também não ser nada. Apaixonadamente, nada.

domingo, abril 10, 2005

Os três enigmas da esfinge

Onde a areia queima como ente incandescente,
Onde o ar que respiras é éter que embriaga,
Reina um ser que habita entranhas do inconsciente,
E confunde passos a viajantes perdidos na sua saga.

É a rainha do deserto, o seu trono um jazigo
E observa-me do alto da sua magnitude.
Dirige o rosto como um deus quando fala comigo
E os olhos perdidos estão, à espera que tudo mude.

Rompeu os elos do ar em uivos roucos, enternecidos,
Em apocalípticas notas de mortandade e dor.
Dilacerou-me em sentenças por crimes esquecidos,
Suspendeu a vida a peregrinos imersos no seu amor.

Asfixiou-me na inquisição da minha religião em ti,
Questionou-me sem fim por respostas predeterminadas,
Ajoelhou-me sobre a vontade que me faz errar por aí
À procura de miragens no tempo, de palavras amadas.

Disparou, esmagando-me com o primeiro dos enigmas,
Sobre a sétima essência, alquímico mistério da criação,
Dogma esquecido das religiões, rompimento dos estigmas,
Enquanto procurava por mim algum rastro de razão.

Gritei silenciosamente da insignificância do meu ser,
Pela libertação do pensamento até se tornar acto.
Tornei-me voz e espírito, nasci e tornei a morrer
E na ofuscação da humanidade proferi algo inato...

Exclamei a unidade corporal em éter como essência,
A última, a mais perfeita, na minha evocação de Deus,
A primeira não-razão que nos absolve na demência,
Nos julgamentos da realidade em que todos são réus.

Torturou-me algures na minha sagrada redenção,
Vigiou certezas destas palavras na sua omnipresença
E parece ter acreditado ao proferir a absolvição,
Num impasse de segundos até ecoar nova sentença...

Baleou-me, questionando-me Deus e a sua identidade
E enterrei-me pela terra até nenhures, algures no Inferno.
Violei-lhe os ouvidos ao responder: «a Humanidade,
Que tece fios do seu fado nas vielas de um destino terno».

«E qual é a tua ascese como homem, como ser?
Que desejas desde a profundidade mais íntima de ti?
Quais são os mistérios que desejas resolver?
Por onde tua alma se perde ao vaguear por aí?»

«Quero ser Vento na intensidade da tempestade,
Nas brisas que a enrolam em mim eternamente.
Quero ser deus do ar no seu reino de liberdade,
Veloz e estonteante, num nirvana crescente.»

Parti em paz na minha saga interminável, irreal,
Na consciência do meu renascimento para ti, para nós.
Para trás, a esfinge olha-me estranha no areal,
Emudecida, esperando desafiar outros com a voz.