A poesia pode ter milhares de formas. Milhares de cores. Pode ser negra como o estado de espírito, verde como a vontade, dourada como a magia ou vermelha como o sangue. Pode ser lida ou cantada, lenta e erótica, veloz e arrasadora. Mas pode também não ser nada. Apaixonadamente, nada.

quarta-feira, abril 27, 2005

Quadro de Jaroslaw Kukowski

Éter, a pequena morte

Éter, quinta essência, reunião dos quatro elementos,
Movimento inconsciente do homem que aspira ao céu,
A última tempestade, reunião explosiva dos sete ventos,
A violência dos nossos corpos entre a luz e o breu.

É espasmo do meu corpo na procura do prazer.
É o calor que se evade do inferno da tua pele.
É a vida e a morte, a luta entre o ser e o não ser,
Ar pesado dos pulmões que minha boca expele.

Tornei-me fogo quando te abracei na escuridão
E despi-te com meus lábios sôfregos de amor.
Acariciei-te com os olhos em busca da última sensação
Na fronteira da paz e da guerra, do prazer e da dor.

Transformei-te da terra quando te moldei na loucura,
Quando me aproximei do teu sorriso incandescente,
Quando inventei para ti um nome e chamei-o com doçura
Neste mundo de sensações, na demência da minha mente.

Fomos água quando explodimos em oceanos de paixão,
Quando mergulhámos para sempre na essência da vida.
Tornámo-nos na liquidez da chuva que cai sobre o chão.
Achámo-nos e perdemo-nos no meio da existência perdida.

Elevámo-nos no céu, fundimo-nos nos átomos do ar.
Voámos com o vento, tocámos o pó mágico das estrelas.
Separámo-nos em partículas que deuses voltaram a juntar
Para regressarmos aos nossos corpos, algures estas celas...

De um gole

Amo-te,
Sim amo-te,
Tudo isso que ouves,
De um só gole,
Uma única inspiração.
De uma só,
Com todas as letras.
A.
M.
O.
T.
E.
Ouviste?
Sim, não te minto.
Sim, juro que sim.
Por que te enganaria?
Agora,
Corre,
Despacha-te,
Estou farto
De falar
Com o espelho.

Lógica

Posso jurar-te que não,
Que não é verdade,
Que tudo o que pensas
É apenas um reflexo
Do que sempre acreditaste.
Se te jurar que nada fiz,
Que não fui intermediário
Ou mandatário,
Esqueces?
Se te mostrar por A+B
Que o C
É apenas uma letra,
Acreditas?
E se esconder,
Limpar,
O sangue da arma
Que tenho na mão,
Duvidarás
Se será
O teu?

segunda-feira, abril 11, 2005

Insurreição

Violo os lacres de todas as minhas personificações
Num acto de rebeldia, de insurreição reflexiva.
Questiono-me em silêncio no limiar de exclamações,
Como um deus sem súbditos que procura a fé fugitiva.

Acordo sem teu torpor na minha pele lacrado,
Sem prenúncios de êxtase no vazio estático da cama.
Clamo a insolência dos segmentos do teu corpo suado,
Da tua pele sobre esta, como o fósforo que dá chama.

Insurjo-me contra a acalmia deste éter em fúria,
Quando desejo diluir-me por debaixo da tua pele,
Tornar-me alvo do teu sangue, objecção desta incúria,
Se me rejeitares em cada veia, cada fado que me sele.

Acrescento-me a ti, integro-me na tua semântica,
Liquidifico-me no teu existir, na solidez que perdura.
Torno abstractos números desta descrença em quântica
Para tentar enganar deus com estes actos contranatura.

Sincronizo-me na paralisação dos instantes de ausência,
Na extensão corporal desta fugacidade incompreensível.
Rotulo-me na fuga de mim mesmo, na sua intransigência,
Com a violência sacramental do pensamento irreversível...

Suspendo pensamentos, virtudes e enganos que se concebem
Nos limites do teu corpo, nas ravinas irreais da tua dimensão.
Vicia-me a sequência de todos os beijos que me recebem,
Estendido sobre as assimetrias da minha própria explosão.

Quadro de Uriy Kakichev

Quadro de Bourdin

Nada

Sei que não existes,
Que és nada,
Só isso, nada.
Nada mais,
Pouco menos,
Uma invocação,
Um desejo,
Um corpo moldado
Como barro imaginário.
Uns lábios na penumbra,
Um ventre por debaixo dos lençóis.
Se não existes,
Estou salvo.
Se sou um assassino
E matei por ciúme,
O meu crime
Não é mais crime,
E a minha arma,
Afundada num rio,
Lavou-se
Das impressões digitais.

Túnel

Olha, vês?
Ouve-me, estás a ver?
Que luz é aquela
Ao fundo do túnel?
Que brilho, vês?
Será que morri?
Será que não posso
Voltar para trás?
Dizer-te tudo
O que não disse?
Aquilo que querias ouvir
(Mesmo que fosse mentira),
Aquilo que me pediste
(Mesmo que não por palavras),
O que tanto desejaste?
Será que posso inventar
Uma nova encruzilhada,
Outro destino?
Uma porta mágica
De desenho animado,
Uma máquina do tempo,
Qualquer coisa?
Posso mandar-te uma carta,
Se não for em pessoa?
Que voz é esta
Que me diz que não?
Quem és tu,
Mostra-te!
Vou gritar o que é da praxe
E, se não continuar,
Que saibam que morri.
Mas que luz
É esta?

Abraço de deus

Chamo abraço de deus
A esse momento
Intenso,
Louco e transitório,
Que nos separa
De uma nova decisão.
Vírgula,
Pausa,
Passo,
Check-in de neurónio...
Sempre que paro,
Olho e escuto
A ver se o vejo
Como a um comboio sem cancela.
Deixei a crença
Porque sempre tive pressa
Em decidir.
E nunca fui veloz
Para o reter
Nos meus braços.

Quadro de Didier Colin

Asfixia

Letras soltas,
Velhas,
Apagadas.
Escrevo nos impasses da tinta,
Tinta que ri.
E este espaço de engano,
Rótulo de decepção,
Absorve-me a alma pela nudez
Da sua interioridade
E sufoca-me
Com braços de perfume.
Invoco-te as altercações do sangue
Entre o ríspido apertar dos joelhos
Enquanto fechas os olhos
Para não sentir
A invasão do hemisfério,
O ventre num pranto de oceano,
As nuvens decepadas
E as ilusões nítidas
Em suaves repetições
De magenta.

domingo, abril 10, 2005

Máquina do Tempo

Uma lâmina grava-me
Estradas na carne,
Mostra-me caminhos,
Decisões para tomar
Na violência dos espasmos.
Acrescenta-me
O sangue que me escapa
E a dormência que exijo
Com a gravidade
De uma nova poesia.
Enquanto perco forças
Recupero a alma,
Estilhaços de pensamentos,
Memórias.
Lembro-me
De fragmentos de cheiros,
De intervalos na respiração,
Das intensidades diferentes
De um olhar.
Turvo é tudo o que vejo,
Poluído está o ar que inspiro.
Os pulmões
Saem-me pela boca,
Os ossos estalam,
Rangem,
Quebram
E quando abro os olhos
Sei
Que o tempo voltou para trás.

Os três enigmas da esfinge

Onde a areia queima como ente incandescente,
Onde o ar que respiras é éter que embriaga,
Reina um ser que habita entranhas do inconsciente,
E confunde passos a viajantes perdidos na sua saga.

É a rainha do deserto, o seu trono um jazigo
E observa-me do alto da sua magnitude.
Dirige o rosto como um deus quando fala comigo
E os olhos perdidos estão, à espera que tudo mude.

Rompeu os elos do ar em uivos roucos, enternecidos,
Em apocalípticas notas de mortandade e dor.
Dilacerou-me em sentenças por crimes esquecidos,
Suspendeu a vida a peregrinos imersos no seu amor.

Asfixiou-me na inquisição da minha religião em ti,
Questionou-me sem fim por respostas predeterminadas,
Ajoelhou-me sobre a vontade que me faz errar por aí
À procura de miragens no tempo, de palavras amadas.

Disparou, esmagando-me com o primeiro dos enigmas,
Sobre a sétima essência, alquímico mistério da criação,
Dogma esquecido das religiões, rompimento dos estigmas,
Enquanto procurava por mim algum rastro de razão.

Gritei silenciosamente da insignificância do meu ser,
Pela libertação do pensamento até se tornar acto.
Tornei-me voz e espírito, nasci e tornei a morrer
E na ofuscação da humanidade proferi algo inato...

Exclamei a unidade corporal em éter como essência,
A última, a mais perfeita, na minha evocação de Deus,
A primeira não-razão que nos absolve na demência,
Nos julgamentos da realidade em que todos são réus.

Torturou-me algures na minha sagrada redenção,
Vigiou certezas destas palavras na sua omnipresença
E parece ter acreditado ao proferir a absolvição,
Num impasse de segundos até ecoar nova sentença...

Baleou-me, questionando-me Deus e a sua identidade
E enterrei-me pela terra até nenhures, algures no Inferno.
Violei-lhe os ouvidos ao responder: «a Humanidade,
Que tece fios do seu fado nas vielas de um destino terno».

«E qual é a tua ascese como homem, como ser?
Que desejas desde a profundidade mais íntima de ti?
Quais são os mistérios que desejas resolver?
Por onde tua alma se perde ao vaguear por aí?»

«Quero ser Vento na intensidade da tempestade,
Nas brisas que a enrolam em mim eternamente.
Quero ser deus do ar no seu reino de liberdade,
Veloz e estonteante, num nirvana crescente.»

Parti em paz na minha saga interminável, irreal,
Na consciência do meu renascimento para ti, para nós.
Para trás, a esfinge olha-me estranha no areal,
Emudecida, esperando desafiar outros com a voz.

Azul

Sinto os batimentos apressados
Das convulsões vulcânicas
Do meu sangue.
Um vento de eternidade
Que se entrelaça nos meus dedos.
Imagino dias sem dor,
Sem espasmos,
Na ressaca desta viagem sem fim,
Na inferioridade
Deste corpo azul.
Descubro os teus faróis
Na escuridão dos pirilampos,
Mosquitos esmagados a 100 à hora,
O roncar do motor velho
E moribundo.
Cresço por ti, portas abertas,
Seios a descoberto,
Violento na intimidade,
Dorido no rasgar das roupas.
Fecho os olhos e invento
Palavras para te dizer,
Para que te amem por mim,
Enquanto não chego à explosão
Nos teus olhos vermelhos.
Encanto-me com a dissolução
Dos pedaços de pele,
Da alma sem vontade,
Do sangue que escorre
Do ventre que esmago.

A um pintor desconhecido...

Pozinhos de pirlimpimpim

A lua encheu-se de alma de lobisomem,
Fez circunflexos de sobrancelhas
E uivou demoradamente,
Num desespero
De outros tempos.
O nevoeiro reuniu forças,
Fez-se cor dos sonhos,
E desenhou interrogações.
Encontrei-te caminhante
Nessa estrada,
Em uniforme de camisa branca,
E meias de frenesim.
Deixavas pegadas de criança,
Mas abraçavas de frente o medo
Numa inspiração de tornado.
O alcatrão dividia-se e recortava-se
Em páginas de suplemento,
As linhas uniam-se a carvão
Em elefantes e cães
Aos quadradinhos.
Peguei-te pelo braço,
Enchi o peito de imaginação,
Acrescentei-te pozinhos de pirlimpimpim
E a ignição de uma 4L
E vagueámos por aí,Até à condensação de um suspiro.

Musa de uma poesia

Construo momentos e sonhos na areia molhada,
Esquecida entre os dedos e tomada como essência,
Implorando um sopro de vida na maré espumada
Que vem dos confins do Éden pelos mares da existência.

Molho os dedos no sal, alicerce das suas curvas,
Numa viagem pelo tempo entre hipóteses e teorias,
Como alquimista que transforma em ouro águas turvas
E do carvão faz diamantes, da musa belas poesias...

Moldo-te como se seguisse alguma imagem instintiva,
Desenhada desde cedo nas areias movediças da mente.
Alguma luxúria inconsciente que apenas me incentiva
A navegar como um estranho por entre estranha gente...

Mas sou aquilo que sou, uma poesia sem rima,
Um verso encantado pela musa, passado sem presente.
Vaguearei pela areia à procura do norte que me anima,
Da filha do Sol, de uma estrela polar que invente...

Criarei novos mundos e a ti dar-te-ei a vida,
Moldada pelas minhas mãos, pela minha pouca arte.
E amar-te-ei com as carícias de uma mão perdida
Pelos retalhos de pele, pela areia, por toda a parte...

Adormecerei a esta estátua de amor agarrado,
Acariciado nos seus braços pela brisa deste mar,
E nas preces pedirei um sopro de vida e um fado
Que a arranque das raízes e me embriague com o andar...

Esboço de Matisse

Na tua epiderme

Fizemos amor, lembro-me,
Algures na tua epiderme.
Mas não te reconheci entre os gemidos graves
E os tufos de cabelo.
Foste uma estranha, de vestido curto
E pernas apertadas,
Um monte de ossos de manequim de montra,
Sem sexo e em saldo.
Trazias a mala na ombreira
E uma tatuagem no tornozelo,
Um provérbio de alcova,
Que nada queria dizer.
Dizias versos decorados,
Recitados antes ao teu ouvido.
Fechavas os olhos e adormecias,
Com os lábios trincados sem cor,
Entre os pacotes do hipermercado.

Desenho a carvão

Encontrei um velho a pedir esmola,
Um espelho de alguém que nunca vi,
Roto nos cotovelos,
E de voz desgravada em pedaços de iogurte.
Pediu-me uma moeda, um xelim, um troco,
Lacrimejou uma brisa e morreu ali mesmo,
Podre por dentro.
Desenhei-o a carvão num bloco de notas,
De boca aberta de lixeira ao ar livre
E adormeci
Quente na cama
Dos lençóis do Pato Donald.

Vidro fosco partido

Exangue,
Dormente na fronteira
Da minha evocação.
Um dia cortarei a jugular
Com um vidro fosco partido
Guardado nas minhas entranhas.
Sangrarei
Mares e agonias
Em busca da cura das sanguessugas,
Febril e moribundo,
Desejando que uma gota de ácido
Caia sobre este ventre.
Nu,
Sem alma,
Esventrado, oco depois da pele,
Poderão queimar-me e espalhar-me
Algures por aí, pela vida,
Como dias de pó
Em cima da cómoda do meu quarto.